In sofrer com alegria
Por Lélia Cristina da Luz de Melo
Lélia é psicóloga clínica e membro – supernumerária – do Opus Dei. Não nos escreve sobre acontecimentos da sua vida, porém – entre outras referências – a sua experiência profissional e os ensinamentos do Fundador do Opus Dei lhe serviram de inspiração para redigir estas considerações sobre “a psicologia da alegria”.
“O amor traz consigo a alegria, mas é uma alegria com as raízes em forma de cruz. Enquanto estivermos na terra e não tivermos chegado à plenitude da vida futura, não pode haver amor verdadeiro sem a experiência do sacrifício, da dor. Uma dor que se saboreia, que é amável, que é fonte de íntima alegria, mas que é dor real, porque supõe vencer o egoísmo e tomar o amor como regra de todas e cada uma de nossas ações.” (São Josemaria em “É Cristo que passa”, ponto 43)

A alegria é um sentimento desejado por todos os homens, ninguém, em estado normal de saúde mental, procura deliberadamente a tristeza. A alegria é quase um sinônimo de felicidade, é um estado de júbilo interior, euforia, contentamento.

Hoje, confunde-se alegria com excitação ocasional, provinda de êxitos esporádicos, aquisições materiais ou divertimentos variados. Vemos, na mídia e na vida, inúmeras pessoas aparentemente felizes, dando risadas escancaradas ou dizendo coisas altamente empolgantes. Não é difícil entrever que o exagero emocional revelado por elas, não passa de uma defesa que encobre, na verdade, uma opacidade e um vazio ansioso.

É muito interessante notar que nos dias de hoje, quase ninguém aceita o sacrifício, o sofrimento, o desconforto e o esforço suado para lutar com valentia por conquistas nobres. Por todos os meios e em todas as instâncias, procura-se minimizar todas as contrariedades e dificuldades reais. Abaixo a dor! Entretanto, como é impossível viver nesta vida sem frustração, os amantes do “bem-estar a qualquer preço”, na verdade, sofrem muito (um sofrimento estéril, inócuo), porque se debatem contra a própria realidade, que a todo instante evidencia contratempos. A felicidade destes é medíocre, se é que há. Só podem se alegrar poucas vezes, porque para eles esta suposta alegria, além do mais, dependerá dos outros e das circunstâncias para acontecer. Ora, estes êxtases, não passam de miragem, são incompatíveis com a dignidade humana.

Nunca foi tão necessário desmistificar o conceito da alegria, e nunca foi tão prudente uni-la também ao sofrimento. Afinal, aqueles que têm um sentido para a vida, quando sofrem, sofrem felizes; os que não têm, são infelizes mesmo sem sofrimento – e o homem não foi feito para esta pouquidão. Alegria, alegria mesmo, é este sentimento sempre revelado pelos que escrevem a este site e também por outros que, justamente, não fogem da dor, não evitam a Cruz; para eles, a alegria é verdadeira e perene, e mais, tende a aumentar com o tempo e o uso.

A alegria deles é também a minha, compartilhamos da leveza de quem tem fé, da fraternidade que nos enlaça num mesmo ideal e da esperança que nos oxigena no meio do caos. É por isso que saímos alegremente à procura de outras pessoas, lembrando-as de que a felicidade existe, pois fomos feitos para ela (jamais para a tristeza), mas é preciso procurá-la no lugar certo, e é preciso encontrá-la Naquele que é o escultor do “buraco” que tanto ansiamos preencher para sermos alegres. O Opus, que é Dei, é analogamente Alegria, senão não seria Dei (de Deus).

Lélia Cristina da Luz de Melo

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