Terça-feira, 8 de julho - Mt 9, 32-38

32Quando estes iam a sair, apresentaram-Lhe um mudo e endemoninhado. 33E, expulso o Demónio, falou o mudo, e a multidão admirada dizia: Nunca se viu coisa assim em Israel. 34Os Fariseus, porém, diziam: É pelo Príncipe dos Demónios que Ele expulsa os Demónios.
35E Jesus andava por todas as cidades e aldeias, a ensinar nas sinagogas, a pregar o Evangelho do Reino e a curar todas as doenças e todas as enfermidades. 36Ao ver a multidão, condoeu-Se dela, porque andavam maltratados e abatidos, como ovelhas sem pastor. 37Então disse aos discípulos: A messe é grande, mas os trabalhadores, poucos. 38Rogai, pois, ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a Sua messe.


27-34. O Evangelista sublinha a reacção diferente que produzem os milagres. Toda a gente admite o poder divino em tais factos, excepto os fariseus que, perante a evidência dos prodígios, atribuem estes a poderes diabólicos. A atitude farisaica endurece de tal modo o homem que a adopta, que o fecha para toda a possibilidade de salvação. Talvez o reconhecimento de Jesus como o Messias (chama-lhe: Filho de David, v. 27) por parte dos cegos tenha exasperado a paixão dos fariseus que, não obstante a doutrina sublime e os milagres de Jesus, continuam recalcitrantes na sua oposição.

Ao considerar este episódio não é difícil dar-se conta de que diante de Deus se dá este paradoxo: há cegos que vêem e videntes que não vêem nada.

30. Por que é que o Senhor não queria que tornassem público o milagre? Porque tinha que seguir um plano progressivo na manifestação de que era o Messias, Filho de Deus. Por isso, não queria precipitar os acontecimentos nem que as multidões entusiasmadas o proclamassem o Rei Messias, com uma mentalidade nacionalista que Ele queria evitar.

Isto não era só um risco, mas uma realidade. Noutro momento, por altura do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes (Ioh 6, 14-15), "aqueles homens, ao ver o milagre que Jesus tinha feito, diziam: Este é verdadeiramente o Profeta que vem ao mundo. Jesus, conhecendo que viriam para O levarem e O fazerem rei, retirou-Se de novo para o monte Ele sozinho".

31. Diz São Jerônimo (cfr Comm. in Matth.,9, 31) que os cegos divulgaram o acontecimento, não porque se tenham negado a obedecer a Jesus, mas porque não encontraram outro meio de exprimir a sua gratidão.

35. O Concílio Vaticano II recorre a este lugar para assinalar a mensagem de caridade cristã que a Igreja deve levar a toda a parte: "Efectivamente, a caridade cristã a todos se estende sem discriminação de raça, condição social ou religião; não espera qualquer lucro ou agradecimento. Portanto, assim como Deus nos amou com um amor gratuito, assim também os fiéis, pela sua caridade, sejam solícitos para com os homens, amando-os com o mesmo zelo com que Deus veio procurá-los. E assim como Cristo percorria todas as cidades e aldeias, curando todas as doenças e todas as enfermidades, proclamando o advento do reino de Deus, do mesmo modo a Igreja, por meio dos seus filhos, estabelece relações com os homens de qualquer condição, de modo especial com os pobres e aflitos, e de bom grado por eles gasta as forças" (Ad gentes, n. 12).

36. "Condoeu-Se dela": O verbo grego é profundamente expressivo: "comover-se nas entranhas". Jesus com efeito, comoveu-Se ao ver o povo, porque os seus pastores, em vez de o guiarem e cuidarem dele, o desencaminhavam, comportando-se mais como lobos do que como verdadeiros pastores do seu próprio rebanho. Jesus vê na situação do Seu tempo cumprida a profecia de Ez 34, em que Deus, por meio do profeta, increpa os maus pastores de Israel, em substituição dos quais enviará o Messias.

"Se fôssemos consequentes com a nossa fé, quando olhássemos à nossa volta e contemplássemos o espectáculo da História e do Mundo, não poderíamos deixar de sentir crescer nos nossos corações os mesmos sentimentos que animaram o de Jesus Cristo" (Cristo que passa, n.° 133). Com efeito, a consideração das necessidades espirituais do mundo deve levar-nos a um infatigável e generoso trabalho apostólico.

37-38. À contemplação da multidão abandonada pelos seus pastores, seguem-se as palavras de Jesus que nos apresentam, sob a imagem da messe, essa mesma multidão preparada para que se realize nela a obra da Redenção: "Levantai os vossos olhos e vede os campos que estão dourados para a sega" (Ioh 4, 35). O campo arroteado pelos Profetas, ultimamente por São João Baptista, está já coberto de espigas maduras. Do mesmo modo que nos trabalhos do campo se não se sega no momento oportuno a colheita se perde, assim na Igreja se sente ao longo dos séculos a urgência de colher a messe, que é muita e está preparada.

A dificuldade é que agora, como nos tempos de Jesus, os obreiros são poucos em proporção com a tarefa. A solução é dada pelo próprio Senhor: orar, rogar a Deus, Dono da messe, para que envie os obreiros necessários. Será difícil que um cristão, que se ponha a rezar de verdade, não se sinta urgido a participar pessoalmente neste trabalho apostólico. Ao cumprir este mandato de Jesus Cristo, deve pedir-se de modo especial que não faltem os bons pastores, que dêem aos outros operários da messe os meios de santificação necessários para a tarefa apostólica.

Na verdade, recorda-nos o Papa Paulo VI: "A responsabilidade da difusão do Evangelho que salva é de todos, de todos os que o receberam. O dever missionário recai sobre todo o Corpo da Igreja. De maneira e em medidas diferentes, é certo; mas todos, todos devemos ser solidários no cumprimento deste dever. Assim pois, que a consciência de cada crente se pergunte: Tenho cumprido o meu dever missionário? A oração pelas Missões é o primeiro modo de pôr em prática este dever" (Alocução na recitação do Angelus, 23-X-1977).

 

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