21Nem todo o que Me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas o que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus. 22Muitos hão-de dizer-Me naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em Teu nome e em Teu nome expulsamos demônios e em Teu nome fizemos muitos milagres? 23Então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci, apartai-vos de Mim, obreiros da iniqüidade.
24Todo aquele, pois, que ouve estas Minhas palavras e as põe em prática, é semelhante a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. 25E caiu a chuva, e vieram os rios, e sopraram os ventos, e precipitaram-se contra aquela casa, mas ela não desabou porque estava fundada sobre a rocha. 26E todo o que ouve estas Minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia. 27E caiu a chuva e vieram os rios, e sopraram os ventos, e precipitaram-se contra aquela casa, e ela desabou, e a sua ruína foi grande.
28E aconteceu que, quando Jesus terminou este discurso, a multidão estava maravilhada por causa da Sua doutrina, 29porque os ensinava como quem tinha autoridade e não como os seus Escribas e Fariseus.
21-23. A oração, para que seja autêntica, deve ir acompanhada pela luta contínua por cumprir a vontade divina. Do mesmo modo, para cumprir essa vontade não basta falar das coisas de Deus, mas é necessário que haja coerência entre o que se pede - o que se diz - e o que se faz: "O Reino de Deus não consiste em palavras, mas em realidades" (l Cor 4, 20); "Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes, enganando-vos a vós próprios" (Iac 1,22).
Os cristãos "fiéis ao Evangelho e graças à sua forca, unidos a quantos amam e promovem a justiça, têm a realizar aqui na terra uma obra imensa, da qual prestarão contas Àquele que a todos julgará no último dia. Nem todos os que dizem 'Senhor, Senhor' entrarão no reino dos céus, mas aqueles que cumprem a vontade do Pai e põem seriamente mãos à obra" (Gaudium et Spes, n. 93).
Para entrar no Reino dos Céus, para ser santo, não basta, pois, falar de modo eloqüente da santidade. É necessário levar à prática o que se diz, dar os frutos de acordo com as palavras. Muito graficamente recomenda Frei Luís de Granada: "Olha que não é ser bom cristão somente rezar e jejuar e ouvir Missa, mas que te ache Deus fiel, como a outro Jó e outro Abraão, no tempo da tribulação" (Guia de pecadores, liv. 1, part. 2, cap. 21).
Também o exercício de um ministério eclesiástico não assegura a santidade, visto que deve ir acompanhado da prática das virtudes que se pregam. Por outro lado, a experiência vem ensinar que todo o cristão (seja qual for a sua condição dentro da Igreja) que não se esforça por fazer coincidir os seus actos com as exigências da fé que professa, começa a debilitar-se nesta fé e termina afastando-se dela, não só na prática, mas também na doutrina. Pois todo aquele que não cumpre o que diz, acaba a dizer o que não deve. A autoridade com que Jesus Se exprime nestes versículos revela a Sua condição de Juiz soberano de vivos e mortos. Nunca no AT nenhum profeta tinha falado com essa autoridade.
22. "Naquele dia": Fórmula técnica na linguagem da Bíblia para designar o dia do Juízo do Senhor ou Juízo Final.
23. "Lhes direi abertamente": A frase equivaleria a "então eu pronunciarei a sua sentença". Com efeito, a passagem refere-se ao juízo dos homens que há-de fazer Jesus
Cristo. O texto sagrado emprega um verbo que expressa a proclamação pública de uma verdade. Como neste caso quem proclama é Jesus Cristo, tal proclamação é a sentença
judicial.
24-27. Estes versículos constituem como que a face positiva do passo anterior. Quem se esforça por levar à prática os ensinamentos de Jesus, ainda que venham as tribulações pessoais, ou períodos de confusão na vida da Igreja, ou se veja rodeado do erro, permanecerá forte na fé, como o homem sábio que edifica a sua casa sobre rocha.
Além disso, para permanecer fortes nos momentos difíceis é necessário, nos tempos de bonança, aceitar com boa cara as pequenas contrariedades, ser delicados no trato com Deus e com os outros, e cumprir com fidelidade e abnegação os próprios deveres de estado. Deste modo se vão lançando os fundamentos, fortalecendo a construção e reparando as fendas que se possam produzir.
28-29. O povo que escutava Jesus percebeu com clareza a diferença radical que havia entre o modo de ensinar dos escribas e fariseus, e a segurança e serenidade com que Jesus Cristo expunha a Sua doutrina. As palavras do Senhor nunca são afectadas de insegurança, nem apresentam dúvida, nem expõem uma mera opinião. Jesus falava com domínio absoluto da verdade e com conhecimento perfeito do verdadeiro sentido da Lei e dos Profetas; mais ainda, não poucas vezes falava no Seu próprio nome (cfr Mt 5, 22.28.32.38.44), e com a própria autoridade de Deus (cfr Mc 2, 10; Mt 28, 18). Tudo isso conferia uma singular força e autoridade às Suas palavras, como jamais se tinha ouvido em Israel (cfr Lc 19, 48; Ioh 7, 46).