In Evangelho do dia

12No primeiro dia dos Ázimos, quando imolavam a Páscoa, dizem-Lhe os discípulos: Onde queres que vamos fazer os preparativos para comeres a Páscoa? 13Ele manda dois discípulos e diz-lhes: Ide à cidade, e sair-vos-á ao encontro um homem com um cântaro de água. Segui-o 14e dizei ao dono da casa onde entrar: «O Mestre manda dizer: Onde está a Minha sala em que possa comer a Páscoa com os Meus discípulos?». 15Ele mostrar-vos-á urna grande sala no andar superior, já mobiliada e pronta. Fazei lá os preparativos. 16Partiram os discípulos e, entrando na cidade, encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito e prepararam a Páscoa.

22Durante a ceia, tomou um pão, pronunciou a fórmula da bênção, partiu-o, deu-o aos discípulos e disse: Tomai; isto é o Meu corpo. “Tomou depois o cálice, deu graças e passou-lho, e todos beberam dele. 24E disse-lhes: Isto é o Meu sangue do Testamento, derramado por muitos. 25Em verdade vos digo que não beberei mais do fruto da vide, até àquele dia em que o hei-de beber novo no Reino de Deus. 26E, cantados os hinos, saíram para o Monte das Oliveiras

Comentário

12-16. Os pormenores deste passo podem parecer à primeira vista desusados no comportamento do Senhor. Não obstante, considerado com certa atenção, tudo é coerente: é provável que Jesus quisesse evitar que Judas conhecesse com antecipação o sítio exacto da celebração da Ceia e o comunicasse ao Sinédrio. Assim se cumpriram os planos divinos para aquela noite memorável de Quinta Feira Santa. Judas, com efeito, não parece ter podido comunicar aos sinedritas onde podiam encontrar Jesus antes de celebrarem a Ceia de Páscoa, durante a qual saiu o traidor do Cenáculo (cfr Iohl3,30).

São Marcos descreve com mais pormenor que os outros evangelistas o lugar da Ceia, ao dizer que era uma sala grande e bem mobiliada: tratava-se de um lugar digno. Uma antiga tradição cristã afirma que a casa do Cenáculo era propriedade de Maria, a mãe do próprio São Marcos, à qual parece que pertencia também o Horto das Oliveiras.

  1. A palavra «isto» não se refere ao acto de partir o pão, mas à coisa que Jesus apresenta aos Seus discípulos, isto é, ao que diante dos seus olhos aparecia como pão, que já não era pão mas o Corpo de Cristo. «Isto é o Meu corpo. A saber, o que vos dou agora e que agora vós tomais. Porque o pão não é só figura do Corpo de Cristo, mas converte-se neste mesmo Corpo, segundo disse o Senhor: o pão que Eu darei é a Minha própria carne (Ioh6, 51). Por isso o Senhor conserva as espécies de pão e de vinho, mas converte estes na realidade da Sua carne e do Seu sangue» (Enarratio in Evangelium Marci, ad loc.). Não corresponde, pois, ao sentido do texto qualquer interpretação que derive para o simbolismo ou para a metáfora. O mesmo se deve dizer acerca de «este é o Meu sangue» do v. 24. Sobre o realismo destas expressões cfr a nota a Mt 26,26-29, primeira parte.
  2. As palavras da consagração do cálice mostram com clareza a natureza de sacrifício que tem a Eucaristia: O Sangue de Cristo derramado que sela a nova e definitiva Aliança de Deus com os homens. Esta Aliança fica selada para sempre com o sacrifício de Cristo na Cruz, no qual Jesus é ao mesmo tempo o Sacerdote e a Vítima. A Igreja definiu esta verdade com as seguintes palavras: «Se alguém disser que no sacrifício da Missa não se oferece a Deus um verdadeiro e próprio sacrifício, ou que o oferecê-lo, não é outra coisa senão dar-Se-nos a comer Cristo, seja anátema» (De SS. Missae sacrifício, cap. l, can. t).

Aquelas palavras pronunciadas sobre o cálice devem ter sido muito reveladoras para os Apóstolos, porque nelas aparecia o sentido de preparação e de antecipação que tinham tido os sacrifícios da antiga Aliança. Os Apóstolos compreenderam deste modo como a Aliança do Sinai e os múltiplos sacrifícios do Templo não eram senão uma figura imperfeita do sacrifício definitivo e da Aliança definitiva, que teriam lugar na Cruz e eram antecipados na Ceia.

Uma explicação clara do caracter sacrificial da Eucaristia, pode ver-se no texto inspirado dos capítulos 8 e 9 da Epístola aos Hebreus. Do mesmo modo, a melhor preparação para entender a presença real e a Eucaristia como alimento da alma é a leitura do capítulo 6 do Evangelho de São João.

Na Ultima Ceia, pois, Cristo entrega-Se já voluntariamente a Seu Pai como vítima que vai ser imolada. Tanto a Ceia como a Santa Missa constituem com a Cruz um sacrifício único e perfeito, porque nos três casos a vítima oferecida é a mesma: Cristo; e o mesmo sacerdote: Cristo. A única diferença é que a Ceia, anterior à Cruz, antecipa de modo incruento a morte do Senhor e oferece a vítima que há-de ser imolada; enquanto a Santa Missa oferece, também de modo incruento, a vítima já imolada na Cruz, vítima que permanece na eternidade da glória.

  1.    O Senhor, depois de instituir a Santíssima Eucaristia, prolonga aquela Ultima Ceia em comovente conversa com os Seus discípulos, a quem dê novo fala da Sua próxima morte (cfr Ioh caps. 13-17). Jesus alivia a tristeza da Sua despedida prometendo aos Apóstolos que chegará um dia em que voltará a reunir-Se com eles, quando o Reino de Deus tiver chegado à sua plenitude. Com isso refere-Se à vida beatífica nos Céus, tantas vezes comparada a um banquete. Então não haverá necessidade do alimento e bebida normais desta terra, mas de algo diferente. Por isso alude o Senhor a um vinho novo (cfr Is 25, 6). Em última análise, depois da Ressurreição, os Apóstolos e todos os santos poderão ter a dita de estar com Jesus.

O facto de São Marcos apresentar estas palavras depois da instituição da Eucaristia, indica de algum modo que esta é uma antecipação aqui na terra da posse de Deus na bem-aventurança eterna, em que Deus será tudo em todos (cfr 1Cor 15, 28). «O Nosso Salvador instituiu na última Ceia, na noite em que foi entregue, o Sacrifício eucarístico do Seu Corpo e do Seu Sangue para perpetuar pelo decorrer dos séculos, até Ele voltar, o Sacrifício da Cruz, confiando à Igreja, Sua esposa amada, o memorial da Sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é concedido o penhor da glória futura» (Sacrosanctum Concilium, n. 47).

  1. «E, cantados os hinos». Segundo o costume dos Judeus, na Ceia Pascal recitavam-se umas orações que se chamavam «Hallel», e que recolhiam os Salmos 113 a 118; a última parte recitava-se no fim da ceia.
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