“Eu sou um filho pródigo” – Ex-membro é recebido de braços abertos

Por Ivanildo Vila Nova de Lima
Ivanildo foi um dos primeiros membros do Opus Dei no Brasil. Tomada a decisão – respeitada por seus diretores – de deixar a Obra, levou consigo o que aprendeu e transmitiu para sua família. Aconselhado, pelos próprios filhos, a voltar a freqüentar os meios de formação do Opus Dei, ficou impressionado com a recepção que teve por parte dos que o conheciam da época anterior.
Termina Ivanildo seu relato dirigindo-se aos que, como ele, se afastaram da Obra: “Volte, reconheça o seu erro, que a misericórdia de Deus e a Obra estão de braços abertos para recebê-los, como me receberam a mim, e perdoá-los.”

Tive a sorte de ser um dos primeiros membros do Opus Dei no Brasil:

Após um retiro pregado por um sacerdote da Obra para uma Congregação Mariana, na cidade de Barueri, que foi o meu primeiro contato, passei a freqüentar primeiro o centro da Rua Gabriel dos Santos e depois o CETEC Centro Técnico e Cultural, um lugar de formação para operários, onde sem qualquer discriminação, recebíamos a formação adequada que precisávamos. Acabei pedindo a minha admissão ao Opus Dei e fique sendo um dos primeiros membros da Obra no Brasil. Cheguei inclusive a conhecer a São Josemaria, quando esteve em São Paulo no ano 1974. A Obra deixou em mim o que eu chamo um selo de qualidade, graças a algumas pessoas que me marcaram com a sua vivência do espírito do Opus Dei.

Após uns oito anos, começou um processo de fuga, motivado pela tentação de experimentar o prazer, que me deixou enfraquecido na vida espiritual. Tive três encontros com o fundador do Opus Dei, o último deles foi o mais marcante, pois me abençoou e pediu a Deus que me abençoasse. Ergueu-me, pois estava ajoelhado, e então senti que o selo de qualidade gravava-se mais fortemente em mim. Mas apesar disto, eu já era naquele momento como a folha que se depreende da árvore. Os diretores da Obra me deram plena liberdade, que eu não soube aproveitar, e fui embora. Passaram-se trinta anos, casei-me e tive dois filhos e sempre passei a todos os da minha família a grandeza da Obra, o espírito da Obra, o amor à santidade que se vive dentro do Opus Dei, mas não encontrei, talvez por orgulho ou por um pouco de medo por não saber como seria recebido de novo, o caminho de volta.

Meus filhos, um com 22 anos e a filha com 18, começaram a cobrar mais intensamente uma maior coerência na minha vida e me aconselharam voltar. Depois, ficaram impressionados com a recepção que tive por parte dos membros da Obra que me conheciam da época anterior, e começaram a freqüentar os meios de formação, coisa que hoje em dia vejo ser o mais importante que aconteceu na minha vida. O fato de meus filhos assimilarem o espírito do Opus Dei e estarem passando-o a todos os parentes e amigos.

Eu sou um filho pródigo. Na verdade vejo em tudo a misericórdia de Deus, e sinto-me muito feliz de ver meu filho pregando a santidade que nos ensinou o Fundador. A Obra é isto. Nunca pude criticar a Obra em nada porque respeitou a minha liberdade sempre. Aprendi tudo dela e quando quis sair ninguém me coagiu. Quando voltei, já quase com sessenta anos, achei os braços abertos e a esperança de retomar o caminho que tinha desperdiçado. Tenho muita dor quando fico sabendo que alguém fala mal da Obra, porque penso que não souberam entender o bem que receberam, e ainda jogam pedras naqueles que lhes ensinaram o caminho da felicidade. Nunca pude fazer isto; seria uma incoerência muito grande. A Obra pos em mim coisas muito boas; se não as aproveitei foi conseqüência de meus pecados. Este selo de santidade que me colocaram na alma é a razão de minha vida, o que me mantém vivo.

Agora estou vivendo momentos de muita felicidade: saber que meu filho assimilou o espírito da Obra e está empenhado em divulgá-lo. Nossa família toda se está envolvendo com a Obra. A Obra está sendo o assunto de nossos almoços e jantas; sempre conversamos sobre os livros que estamos lendo, todos eles muito ricos, que aconselhamos aos nossos amigos. A Obra tem dado um sentido novo à nossa família. Nosso dia a dia não é algo vulgar, a pobreza não é para nós um sofrimento, mas um motivo de alegria, de aceitação da vontade de Deus e um estímulo para o trabalho.

Às vezes doe-me na minha alma a idéia de não ter voltado antes. É uma sensação de tempo perdido. Quantas almas passaram ao meu lado, e eu não as podia tocar. Que Deus me perdoe por isto, por ter deixado passar centenas e centenas de almas sem transmitir-lhes o tesouro que carregava, por culpa de minha miséria e do meu egoísmo. Esta é uma página que não posso mudar, só posso pedir a misericórdia de Deus e a graça de fazer alguma coisa ainda nos anos que me restam.

Quero pedir a Deus que perdoe a algum irmão meu que tenha tido a desventura de se afastar, como eu me afastei. Que Deus lhe mostre o caminho do retorno o mais breve possível, para que não deixe a tanta gente perder a oportunidade de conhecer a graça de Deus através do espírito da Obra, que eles conhecem muito bem, como eu fiz durante tantos anos. Não deixe esta enxurrada de água suja se prolongar por mais tempo. Volte, reconheça o seu erro, que a misericórdia de Deus e a Obra estão de braços abertos para recebê-los, como me receberam a mim, e perdoá-los.

Ivanildo Vila Nova de Lima